23.5.06

Em Álvares Cabral



Imagine uma quinta com uma frente equivalente ao lado Sul da Praça da República e a profundidade que vai desta praça à Rua de Cedofeita. Que a essa quinta tinha sido retirada uma parcela do lado Norte, equivalente à Rua da Boavista. Agora, pense que o proprietário daquele espaço resolveu demolir a casa senhorial que lá tinha e abrir, a expensas próprias, uma rua ampla de um a outro extremo da quinta, lotear o espaço envolvente e vendê-lo para construção de habitações familiares. A isto chamar-se-ia ou não, hoje, uma grande operação imobiliária? Pois esta é história da origem da Rua Álvares Cabral e passou-se no final do século XIX.
Hoje, com a perversão do conceito de cidade, teria, seguramente, dado origem a um condomínio fechado.
É uma parte dessas habitações, com belíssimas fachadas de granito lavrado e varandas de ferro forjado, a par de outras construídas no início do século XX, que as imagens documentam.


























2.5.06

Exclusão



... na Rua Formosa

Adenda
12-05-2006

Há palavras que as imagens não dispensam. Pela oportunidade e pela complementaridade passo a transcrever a reflexão, publicada em A Baixa do Porto, que esta fotografia provocou a Cristina Santos:

(...) esta imagem traz de novo à ideia o problema da tuberculose na Cidade do Porto, a falta de acolhimento e tratamento para estes doentes, o facto de andarem nas ruas sós, sem força, sem possibilidade de trabalhar, sem máscara, na rua, com fome...
Há estudos que alertam para o problema na Cidade, há estudos que revelam que não está controlado e que tem aumentado consideravelmente nos últimos anos arriscando tornar-se um grave problema de saúde pública. Já aqui falei numa reportagem extensa que foi feita no verão do ano passado, em que as equipas de rua transportavam os doentes aos hospitais, lá eram medicados, enquanto aguardavam por atendimento esperavam nos corredores, quase sempre era uma luta para serem atendidos, no máximo permaneciam no hospital dois dias e regressavam aos seus abrigos num autocarro normal.
Os barracos que deixavam livres por morte «natural» eram imediatamente ocupados por outros doentes, que em breve cediam o posto em iguais condições.
Foi quase há um ano: os barracos e as tendas eram nas imediações do São João de Deus, mas nos próprios destroços do bairro, nessa data, já tinham sido criados condomínios a céu aberto, o resto das lajes dos blocos tinham paredes de chapa e divisões com cortinas, luz de velas e ocupantes, incluindo um casal que dos destroços da sua antiga casa refez um quarto onde dormiam com a filha....
Será que vai continuar muito mais tempo assim?


Eu diria que sim, que os ventos sopram a favor da exclusão, do egoísmo e sobretudo da ostentação, o que, inevitavelmente, irá agravar este e outros tipos de «desigualdades chocantes», como lhes chama Cristina Santos.

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