5.1.12

Sobre a privatização do miradouro da Vitória

Já tinha deparado com o miradouro da Bataria da Vitória encerrado ao público, com um aviso indicando que é agora propriedade privada, como referiu J.A. Rio Fernandes n’A Baixa do Porto.

Fotografia de George Tait - 1888.

O miradouro, local carregado de história, levou, no entanto, uma primeira machadada nos anos 90, com a construção de um edifício que impede a fruição da vista do casario que desce da Vitória até ao fundo do vale, e sobe depois até à Sé. Ignoro de quem foi a iniciativa da construção, se da Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto ou da própria câmara. Sei que a vista daquele sítio, que faz parte da iconografia portuense, ficou assim amputada de uma das suas melhores partes. Para além de outros autores, foi fotografado por George Tait, em 1888, e repetidamente pintado por aquele que foi considerado, por Abel Salazar, o maior aguarelista português dos tempos modernos, António Cruz.

Aguarela de António Cruz.

Só não fiquei "estarrecido" com a privatização do miradouro, como se manifesta J. A. Rio Fernandes, com razão, porque não espero, nunca, nada de bom dos poderes públicos em Portugal. Foi assim que me ensinou a prática da vida, alguma memória e uma observação que julgo atenta.



5 comentários:

Nuno Cruz disse...

Fui lá antes de vir embora de Portugal, como diz o nome do blog, Deprimente. Cheio de lixo, mato, totalmente descuidado, claro que a vista é sempre bela, mas o facto de parecer que estamos num aterro deixa-nos totalmente desconfortáveis, a mim deixou.

É triste que seja fechado ao público tal vista, mas pode ser que uma mão privada trate do local como ele o merece e no futuro o reabra a público..

Carlos Romao disse...

É provável, Nuno Cruz, que o logradouro da Vitória venha a ser mais bem tratado por um privado, no entanto, creio que quem o vendeu pela ridicularia de 500 e tal mil euros - uma entidade pública - deveria ter acautelado o usufruto público do local. Segundo o Jornal de Notícias de hoje, isso não terá acontecido. A empresa que comprou o palacete e o miradouro deixa entender que o tem à venda.

mfc disse...

Há crimes urbanísticos que não têm nome... nem autor!

RUI XARUTO disse...

É verdade que o edifício que ali construíram é uma aberração em todos os sentidos. Mas de ideias parvas como esta está o Porto cheio. Hoje mesmo estive no miradouro e é frustrante ter aquele bloco sem graça a tapar uma boa parte da vista, precisamente aquela que faz sobressair a profundidade do vale do Rio de Vila.
Quanto à questão ultimamente tão debatida sobre a privatização do Largo da Bataria, outra ideia aberrante, outra decisão criminosa, faço fé nas alegadas boas intenções do "proprietário" (entre aspas porque considero que os verdadeiros proprietários somos todos nós) em manter o espaço aberto ao público, até porque se trata de um lugar com muitas visitas de turistas. Nos últimos dias já lá estive 3 vezes e não falta quem visite. Pelo que entendi, o miradouro já era há décadas propriedade privada porque alguém se aproveitou da situação e fez-se dono daquilo.
Acredito que, após a renovação do edifício, o miradouro continuará a estar aberto ao público, exceptuando à noite, para evitar o que muitas vezes aconteceu: gente a frequentar o local durante a noite, fazendo barulho que impede quem mora ali de dormir, sujando o local e até mesmo a consumir drogas. É por isso que o portão está fechado, segundo uma conversa que tive com um morador. Neste momento o local está limpo de lixo e sossegado. Nao tem a relva tratada como um jardim público mas não tem mato em excesso.
quanto ao seu futuro, a ver vamos e espera-se que se mantenha nosso (sem aspas).

urbanascidades disse...

Carlos, aqui em Porto Alegre, na década de 70, fruto de uma política "desenvolvimentista", muitos crimes contra o patrimônio histórico arquitetônico foram cometidos. Posteriormente, fruto do esforço de muitos arquitetos gaúchos foi criada uma legislação de proteção ao patrimônio cultural e ambiental, e os poucos prédios remanescentes estão sendo recuperados.
Paulo Bettanin.

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