14.9.12

Desamor pelo Porto

Nada contra o Festival D’Bandada. Venham muitos que animem a cidade. Tudo contra estes monos que a Câmara do Porto promove um pouco por todo o lado.

Estas estruturas grosseiras e enormes, que aparecem todos os verões, poluem a paisagem urbana, causam desconforto e agridem a cidade monumental, como a imagem ilustra.

A par destes trambolhos fora de escala, a C.M.P. prima pelo licenciamento de postos de venda de gelados. Como se esses produtos fossem “a última Coca-Cola do deserto” e não houvesse inúmeros locais onde podem ser comprados.

Na Praça de Almeida Garrett, a agravar o incómodo provocado pelas obras do quarteirão das Cardosas, lá está um caixote em forma de coração, feito empecilho no passeio. Como na Ribeira onde existe outro instalado ridiculamente alinhado pelo meio dos pilares da antiga ponte pênsil, que lhe servem de moldura.

Não faço a clássica pergunta “o que pensarão os turistas?”, porque considero que a cidade é de quem aqui vive ou trabalha; se for um espaço agradável para nós,
também será para quem a visita.

Tudo isto revela provincianismo, falta de sensibilidade, incompetência e desamor pelo Porto. Em Gaia passa-se algo parecido, com aqueles gigantescos, desrespeitosos e ostensivos cartazes voltados para o rio. Imaginam-nos em Florença, por exemplo? Por este andar ainda matam “a galinha dos ovos d’ouro”.

30.7.12

A ver

Casa de Chá da Boa Nova Vandalizada

No Público, as fotos de Paulo Pimenta e o seguinte texto de Jorge Marmelo são elucidativos do abandono a que chegou aquele edifício:

Lista breve de coisas que podem ser vistas quando se visita um edifício classificado como Monumento Nacional: vidros partidos, vidros sujos, excrementos, telhas levantadas, caleiras roubadas e calcinhas de senhora; dois cartazes anunciando a “remodelação” do imóvel e aconselhando os visitantes a visitarem, em alternativa, a Piscina das Marés; e os imponentes rochedos irrompendo da água, o céu azul e os riscos traçados por Álvaro Siza ainda encarnados no cimento – até quando? O Salão de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, está transformado num espaço muito pouco aprazível.

N'A Baixa do Porto sugere-se, e bem, que o executivo da Câmara Municipal de Matosinhos seja levado a tribunal por delapidação dolosa do património.

6.7.12

IGESPAR: 28 anos para classificar a Rua de Álvares Cabral

Um caso que demonstra a inaptidão dos comissários políticos na gestão das causas públicas.

A ler no Porto24: «O Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) classificou como "conjunto de interesse público" vários edifícios da Rua de Álvares Cabral, no Porto, 28 anos depois de se ter iniciado a avaliação.»

25.6.12

Centralismo, a quanto obrigas...


Quando estava em discussão a instalação do Centro Português de Fotografia, a voz de Fernando Rosas distinguiu-se entre as que se manifestaram contra a decisão daquela instituição ficar no Porto, com um argumento disparatado que ilustra bem o conceito que certas elites lisboetas têm do país. Elites apoiadas por muitos migrantes da região Norte e por inúmeros capatazes cá residentes, que disputam com afinco o el-dorado da capital, deixando tanto a maioria do povo daquela cidade à míngua como o resto do país.
Lamentava-se o historiador por ter que se deslocar ao Porto sempre que quisesse consultar o arquivo fotográfico nacional. Como se o país real, como é designado o território que fica fora do espaço compreendido entre a Praça do Comércio e a CREL, não tivesse que pedir licença a Lisboa para coisas tão comezinhas como, por exemplo, realizar um transporte de grandes dimensões entre uma metalomecânica localizada em Gaia e a Póvoa de Varzim. O resultado desta prática que dura há, pelo menos, trinta anos, está à vista: um território desertificado, empobrecido, onde, apesar de tudo, ainda restam valores que o centralismo político-partidário continua a querer para si. Refiro-me, neste caso, outros poderiam ser citados, ao património ferroviário.
Viajamos em composições que Lisboa já não quer, fecham-nos as linhas de caminho-de-ferro – o caso do Douro é um crime que lesa toda a região Norte – inundam-nos os vales com água para servir interesses corporativos que prejudicam as populações locais, como no Tua, e levam-nos agora o património histórico ferroviário para outras paragens, privando-nos da nossa própria memória.

Vem isto a propósito de uma carta aberta, que se transcreve abaixo, assinada por um grupo de ferroviários aposentados, mas não inertes, em que constam nomes que estiveram na direcção da CP no Norte do país quando nesta região havia autonomia ferroviária, manifestando-se contra o esbulho patrimonial de relíquias ferroviárias regionais, ilustrada por duas fotos tiradas em tempos que já lá vão pelo autor deste blogue.


A cocheira de locomotivas a vapor de Nine.


A locomotiva a vapor 02049, a "Andorinha", não é só a mais antiga locomotiva em Portugal como na Península Ibérica.

_________________________

Porto, 08 de Junho de 2012

Exmos. Senhores

Secretário de Estado da Cultura Secretário de Estado das Obras Públicas, Transportes e Comunicações
Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte
Presidente do Conselho de Administração da Fundação para o Museu Nacional Ferroviário
Presidente do Município de Vila Nova de Famalicão
Presidente da Câmara Municipal de Barcelos
Presidente da Câmara Municipal de Braga
Presidente da Câmara Municipal de Guimarães
Presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim
Presidente da Câmara Municipal de Santo Tirso
Presidente da Câmara Municipal da Trofa
Presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde
Presidente da Câmara Municipal de Vizela
Assembleia da República - Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata
Assembleia da República - Grupo Parlamentar do Partido Socialista
Assembleia da República - Grupo Parlamentar do Partido Popular
Assembleia da República - Grupo Parlamentar do Partido Comunista Português
Assembleia da República -Grupo Parlamentar do Partido do Bloco de Esquerda
Assembleia da República -Grupo Parlamentar do Partido Ecologista "Os Verdes"
Presidente da Associação Comercial do Porto
Presidentes das Juntas de Freguesia do Concelho de Famalicão


Carta Aberta - QUEREM ESPOLIAR O NORTE DAS SUAS RELÍQUIAS FERROVIÁRIAS


Os signatários da presente carta dirigem-se a Vossa Excelência pelo facto verificarem existir perigo iminente de serem prejudicados os interesses do Norte do País, bem como a preservação do nosso Património Ferroviário.
Por essas razões, não podemos deixar de alertar para as seguintes questões:
Será bom que todos tenham conhecimento que a MAIS ANTIGA LOCOMOTIVA PORTUGUESA ESTÁ NO NORTE.
Tem o número "CPMD02049" e a alcunha de "ANDORINHA". Foi construída em Inglaterra há 155 anos, quando Portugal inaugurou o caminho de ferro. PODE VISITAR-SE, no pólo museológico da "COCHEIRA de Locomotivas" da Estação de NINE - Vila Nova de FAMALlCÃO, Estação essa comum à Linha do Minho e ao Ramal de Braga.
Está essa locomotiva, no Norte, há 140 anos! Aí chegou em 1872 para a construção das Linhas do Minho e do Douro.
Trabalhou no Norte mais de 100 anos! Rebocou comboios de passageiros e fez serviço de manobras.
A longevidade deste valioso e cobiçado património cultural é bem testemunha da renovação tardia do material ferroviário do Norte, muito depois de o resto do país usufruir de comboios de primeira qualidade. Recorde-se que só em 2004 a Linha do Minho até Nine e o Ramal de Braga foram dotados com os comboios elétricos atualmente em circulação.

O próprio edifício da COCHEIRA DE LOCOMOTIVAS A VAPOR DE NINE é um EDIFÍCIO ÚNICO, entre os 4 do género que restam no país e que marcam uma determinada época. Esta herança cultural, móvel e imóvel, faz parte da identidade e da memória coletiva de muitas gerações (ver nota com os outros veículos em Nine).

É fundamental que este património continue no Norte, como um conjunto único da maior importância, para desenvolver e garantir o interesse turístico no material ferroviário da região. Por essa razão, é mais-valia imprescindível para impulsionar a economia local e regional, no âmbito do turismo, ao diversificar a oferta cultural.

Por força da importância que o SECTOR DA CULTURA tem para a ECONOMIA DA UNIÃO EUROPEIA e para a UNIÃO ENTRE OS POVOS, o fomento do TURISMO FERROVIÁRIO é uma garantia para o FUTURO e, nomeadamente, para o NORTE. Mas este NOSSO PATRIMÓNIO, sempre ao serviço da cultura do país, ESTÁ EM PERIGO! Consta que a Fundação para o Museu Nacional Ferroviário se PREPARA para LEVAR de Nine, PARA O ENTRONCAMENTO, a LOCOMOTIVA a vapor MAIS ANTIGA do PAÍS, além de a única locomotiva a vapor "CP 002" existente no Norte. As restantes três estão no Entroncamento.

Ora, a Fundação para o Museu Ferroviário, como responsável legal de um museu polinucleado, recebido da CP e REFER, não pode:

1 - Acabar com museus existentes há mais de 30 anos;
2 - Tomar atitudes que vão empobrecer uma região ou localidade em favor de outra;
3 - Espoliar populações da sua memória cultural, negando-lhes o direito ao seu património;
4 - Fazer do Entroncamento o herdeiro universal do património ferroviário português - conferindo-lhe a prerrogativa majestática de ir escolher, nos museus ferroviários de todo o país, o material que lá tem sido preservado, apenas pelo facto de lhe interessar para satisfazer os seus objetivos locais;
5 - Centralizar num único local material que outras gentes, incluindo gerações de ferroviários espalhados pelo país, têm protegido e acarinhado ao longo de décadas;
6 - Ter apenas em consideração a sede do museu, aplicando ali todos os investimentos disponíveis;
7 - Transferir para as Câmaras Municipais as despesas de gestão dos museus locais existentes há mais de 30 anos, mas retirando-lhes o material que constitui o chamariz para os possíveis visitantes desses respetivos museus.


Ora, este PATRIMÓNIO DEVE PERMANECER NO NORTE, exatamente como os quadros de Grão Vasco devem continuar na Igreja de Tarouca ou no Museu Grão Vasco de Viseu, bem como os Painéis de S. Vicente, de Nuno Gonçalves, em Lisboa.
É nossa obrigação COLABORAR com a Câmara Municipalde Famalicão na proteção, na valorização e na gestão desta parte da herança cultural do caminho de ferro português, exposta nos MUSEUS FERROVIÁRIOS DE LOUSADO e NINE.
A Fundação tem de ter a sensibilidade e o bom senso para, como parceiro do interesse museológico nacional, investir na criação de melhores condições de exposição em Nine que, com Lousado, é uma referência no Turismo Minhoto.
O Norte sabe e quer continuar a servir e receber bem.
Assim sendo, os signatários vêm pedir a intervenção imediata de Vossa Excelência na defesa dos interesses do Norte e na preservação eficiente do material ferroviário, não permitindo que este património tão importante saia dos museus onde atualmente se encontra porque é indissociável da história desta Região.

Com os mais respeitosos cumprimentos


Ana Maria Valente Fonseca – ferroviária reformada – técnica licenciada
António Moniz palme – ferroviário reformado – advogado
(assinatura ilegível) – ferroviário reformado – eng.
(assinatura ilegível) – ferroviário reformado – técnico
(assinatura ilegível) – ferroviário reformado – maquinista
Duarte Xavier de Campos – ferroviário reformado – eng.
António Marques João – ferroviário reformado – chefe de estação
Avelino Costa da Silva – ferroviário reformado – revisor
Alfredo Dinis da Costa Gonçalves – ferroviário reformado –
Domingos da Cunha Costa – ferroviário reformado – inspector de tracção
António Jorge Carvalho da Silva Vilaverde – ferroviário reformado – eng.
Maria Victória Cerqueira Romão Viana – ferroviária reformada – assistente
Daniel Augusto Rodrigues – ferroviário reformado – inspector de tracção


NOTA: Em Nine encontra-se ainda a carruagem A3 52, de 1a cl, construída em França pela Desouches David em 1886; o Salão-Pagador "CP 5194-8929004", reconstruido nas Of. Gerais da CRP em 1908; a locomotiva a vapor "CP 9", construída em Inglaterra em 1875, pela Beyer & Peacock; a locomotiva a vapor "CP 014", adquirida em 1890 à inglesa Beyer Peacock; e a locomotiva a vapor "CPOO2", construída na Alemanha pala SaechMaschinenfabrik, em 1881.

andorinha.cp02049.nine@sapo.pt - Rua da Restauração, n° 412, 2°  4050-501 PORTO

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ADENDA - 10Out2012
FAMALICÃO REJEITA DESLOCALIZAÇÃO DA «ANDORINHA». PRIMEIRA LOCOMOTIVA A VAPOR ESTÁ EM NINE.

“Não nos passa pela cabeça semelhante cenário”. É desta forma contundente que o vice-presidente e vereador para a cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão reage à hipótese de deslocalização do espólio museológico ferroviário que se encontra no núcleo de Nine, onde, entre outro património, está a célebre “Andorinha”, que é a mais antiga locomotiva a vapor existente em Portugal. Em declarações à televisão, Paulo Cunha não desvalorizou as notícias que circulam na praça pública, sobretudo no meio ferroviário, e que dão conta de uma eventual intenção da Fundação do Museu Nacional Ferroviário em deslocalizar o acervo de Nine para o Entroncamento.

“Estamos naturalmente preocupados e sensíveis aos alertas que nos têm chegado da parte da sociedade civil, mas recusamo-nos a encarar tal possibilidade”, refere o mesmo responsável, adiantando que “a Câmara Municipal não tem qualquer informação nesse sentido por parte da direcção da Fundação, com quem tem acordo de gestão partilhada deste espaço, assim como, com o núcleo de Lousado que se encontra aberto ao público.”

Para o município de Vila Nova de Famalicão, o património que se encontra em Nine representa um símbolo identitário da região e como tal deve permanecer no seu contexto natural, preservado-se a memória e identidade colectiva. Paulo Cunha refere que a autarquia “tem já há bastante tempo a intenção de intervir neste espaço, numa perspetiva de futura musealização e posterior abertura ao público, tendo mesmo existido uma candidatura aprovada para o efeito.” “A conjuntura nacional, bloqueou entretanto o avanço da candidatura para o terreno, mas não descansaremos enquanto não conseguirmos valorizar este espólio único e singular, deixá-lo acessível a toda a população e explorar o seu potencial educativo”, adianta.

É de resto este o sentido de diversas diligências feitas de há uns tempos a esta parte pelo executivo famalicense, junto dos organismos responsáveis pelo património ferroviário, como a Fundação Museu Nacional Ferroviário e a própria Administração Central do país, que, através da Secretaria de Estado da Cultura e do Ministério da Educação, integram o conselho consultivo da Fundação.

Recorde-se que a “Andorinha” é o nome carinhosamente dado pelos ferroviários à locomotiva a vapor 02049 (VL) – 1856-57, construída em Inglaterra há 155 anos, pela empresa, William Fairbairn & Sons, tendo sido utilizada, por exemplo, na construção das linhas do Minho e do Douro. Para além desta, o Núcleo Ferroviário de Nine guarda outras relíquias, como algumas locomotivas únicas da segunda metade do séc. XIX, carruagens de passageiros da mesma altura e quadricíclos da primeira metade do séc. XX."

Sítio do Município de Vila Nova de Famalicão, 9Out2012.

4.5.12

A ouvir

Fernando Alves, nos Sinais da TSF

Na primeira página do JN está um homem antigo, de barbas brancas. sentado sobre um pequeno muro. É o escultor José Rodrigues. Tem um chapéu de aba larga, um olhar de desalento e desafio. Finca as mãos nos joelhos, fita o repórter e diz: "Deitem aqui uma bomba". Lá dentro, ele espraia o desafio a toda a largura da fúria: "Deita-se uma bomba e resolve-se o problema". O escultor está sentado junto a uma das suas obras, o Monumento ao Empresário, instalado há 20 anos na Avenida do Marechal Gomes da Costa, no Porto. É para essa obra, para essa sua obra, que ele pede a misericórdia de uma destruição sumária, uma carga de trotil? É. (...)

E a ver, neste blogue, o estado de abandono a que chegaram esta e outras fontes do Porto.

21.2.12

Carnaval no Porto

Para o sinistro "casarão dos Aliados", o Porto é uma área de negócio onde, por grosso ou a retalho, tudo se vende, até a alma da cidade.

29.1.12

A natureza deve ser servida em doses homeopáticas


A rua eng. Ferreira Dias, na inóspita e desumanizada zona industrial do Porto, antes e depois do recente abate de 102 árvores, a maioria choupos de grande porte.

5.1.12

Sobre a privatização do miradouro da Vitória

Já tinha deparado com o miradouro da Bataria da Vitória encerrado ao público, com um aviso indicando que é agora propriedade privada, como referiu J.A. Rio Fernandes n’A Baixa do Porto.

Fotografia de George Tait - 1888.

O miradouro, local carregado de história, levou, no entanto, uma primeira machadada nos anos 90, com a construção de um edifício que impede a fruição da vista do casario que desce da Vitória até ao fundo do vale, e sobe depois até à Sé. Ignoro de quem foi a iniciativa da construção, se da Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto ou da própria câmara. Sei que a vista daquele sítio, que faz parte da iconografia portuense, ficou assim amputada de uma das suas melhores partes. Para além de outros autores, foi fotografado por George Tait, em 1888, e repetidamente pintado por aquele que foi considerado, por Abel Salazar, o maior aguarelista português dos tempos modernos, António Cruz.

Aguarela de António Cruz.

Só não fiquei "estarrecido" com a privatização do miradouro, como se manifesta J. A. Rio Fernandes, com razão, porque não espero, nunca, nada de bom dos poderes públicos em Portugal. Foi assim que me ensinou a prática da vida, alguma memória e uma observação que julgo atenta.



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